A gaita diatônica de 10 orifícios, também conhecida como diatônica de 20 vozes ou gaita-Blues, foi concebida como um instrumento incompleto, por isso seu nome diatônica, que designa algo provindo de um único modo ou escala, neste caso, jônico. Repare que na primeira e terceira oitavas faltam notas. Richter, responsável pela elaboração da disposição de notas da gaita diatônica que mais se popularizou em todo o mundo, vislumbrou um instrumento que pudesse tocar acordes na região grave e melodias no restante. Esta disposição privilegia a execução de combinações entre notas de igual fluxo de ar (sopradas ou aspiradas).
Com a inserção das harmônicas na cultura musical, novas notas apareceram no repertório da diatônica. Hoje, o nome do instrumento pode soar incoerente, já que sabemos que não é um instrumento diatônico, mas sim cromático, pois possui todas as 12 notas musicais ao longo de três oitavas. Se tomarmos como referência determinantes históricos e técnicos, as notas da gaita podem ser classificadas em três classes:
Notas naturais são as 20 notas que estão "prontas" no instrumento, que exigem menos esforço orgânico. São 10 sopradas e 10 aspiradas. Na gaita na tonalidade de C, que tem sua origem na escala de C maior, estão presentes: DÓ, RÉ, MI, FÁ, SOL, LÁ, SI. Nesta classe de notas, somente a segunda oitava possui a escala diatônica completa, pois na primeira oitava o IV grau (FÁ) e o VI (LÁ) estão ausentes. O mesmo acontece com o VII grau (SI) na terceira oitava.
Ex.: orifício 4 (DÓ soprado e RÉ aspirado).
Bend: técnica que foi desenvolvida com a entrada da gaita no Blues. Através dela é possível a execução da(s) nota(s) presente(s) no intervalo entre as notas naturais sopradas e aspiradas. Pode-se dizer que são notas orgânicas, já que são acionadas através de movimentos do organismo (língua e garganta) específicos para cada nota. Com os bends a escala diatônica da gaita se torna completa (aparece o IV, VI e VII graus), além disso, alguns acidentes musicais (sustenidos e bemóis) tornam-se possíveis, mas a soma de notas naturais e bends ainda não resultam na escala cromática.
Residem nos orifícios 1 ao 6 aspirados e 7 ao 10 soprados, ou seja, são executados com direção de fluxo de ar igual a palheta mais aguda do orifício. Ex.: orifício 4, o bend é aspirado (RÉ é mais agudo que DÓ), a nota que está no intervalo entre estas duas notas, isto é, o bend produzido, será do#/réb.
Overbend: técnica sistematizada por Howard Levy a partir de 1969 que completou a escala cromática na gaita diatônica. Também são notas orgânicas e se tornam bastante viáveis quando o instrumento está otimizado para a técnica.
Residem nos orifícios 1 ao 6 soprados (overblows) e 7 ao 10 aspirados (overdraws), são executados com direção de fluxo de ar igual a palheta mais grave do orifício, ou seja, tem fluxo exatamente oposto em relação aos bends. Produzem notas um semitom acima da palheta de fluxo oposto. Ex.: orifício 4, o overbend é soprado (DÓ é mais grave que RÉ), a nota que está um semitom acima de RÉ, portanto o overblow, é ré#/mib.
Obs.:
1. Se não considerarmos as possíveis inflexões dos bends e overbends, um orifício pode ter até seis notas se somadas as naturais bends e overbends. Com exceção nos orifícios 5 e 7, em todos os outros extraem-se bends e overbends, nestes, apenas os overbends produzem novas notas, os bends costumam ser utilizados somente para inflexão (efeito) das notas FÁ e DÓ, pois o intervalo entre suas notas naturais é de um semitom, não há nota no intervalo.
2. Os overbends dos orifícios 2, 3 e 8 produzem notas iguais ao sol# (bend no 3), DÓ (4 natural) e FÁ (9 natural).
3. O domínio de todas as três classes de notas passa por um intenso estudo até que timbre, afinação e articulação funcionem. Uma única gaita tocada integralmente é apta a tocar qualquer tonalidade.
Fernando Xavier
Fonte: www.bends.com.br